Medo provoca evasão em escola onde Duda morreu atingida por três disparos

Medo provoca evasão em escola onde Duda morreu atingida por três disparos

O encanto da escola como um espaço seguro, em meio à guerra no Morro da Pedreira, em Costa Barros, se quebrou. Foi às 16h06 da última quinta-feira de março, quando três balas perfuraram o corpo de Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, e mataram a aluna no pátio da Escola municipal Jornalista Daniel Piza. Depois disso, tudo mudou. O porto seguro passou a ser temido. Dezessete estudantes deixaram a escola. As atividades no contraturno, como o basquete que Duda jogava quando morreu, perderam alunos.

— Tenho medo de estar aqui. Antes, não tinha — conta uma aluna de 11 anos.

“O, Deus. Por favor, vem logo. Me ajuda. O Brasil precisa de paz e amor”, escreveu um aluno de 10 anos de uma turma de 6º ano, num trabalhinho sobre paz feito a pedido do EXTRA. “Não deixe que as balas atinjam a nossa escola”, implorou um garoto de 11 anos.

Luiz Menezes, diretor da unidade, tenta reverter o processo de evasão, que só não foi maior porque ele convenceu diversos pais e mães a não tirarem seus filhos de lá. O professor de Educação Física que se jogou na frente das crianças para tentar salvá-las no dia da morte de Duda ainda está de licença médica.

— Os pais da criança que entra de manhã não querem mais que ela fique de tarde — diz o diretor.

A volta às aulas tem sido gradual. Na primeira semana, após atendimento psicológico a professores e alunos, houve oficinas com atividades lúdicas. As provas bimestrais foram adiadas, e só agora as notas serão colocadas em dia.

— Hoje, depois da morte da Maria Eduarda, eles (os estudantes) já percebem que a morte pode atingi-los. Antes, muitos iam para a janela tentar ver (os confrontos). Agora, não. Há pouco tempo houve um confronto que parecia próximo daqui e imediatamente a turma toda foi para o chão se proteger — resume Menezes.

Falta de rotina

A última semana da Escola municipal Daniel Piza foi completa, com cinco dias de aula. Na semana retrasada, os tiroteios interromperam as atividades durante um dia e meio. Esta semana, ninguém sabe como vai ser. A comunidade escolar na Pedreira vive um dia de cada vez. Essa falta de rotina escolar provocada pela violência é, na avaliação do diretor Menezes, o principal desafio para o aprendizado dos alunos:

— A gente sente falta é da rotina que foi quebrada (com a tragédia) e que a gente não conseguiu reassumir tranquilamente. Alguns dias, precisamos liberar mais cedo.

Há, basicamente, duas situações que fecham a escola: quando chega carga roubada (há dias em que são até sete caminhões) ou se há revide dos bandidos em operações policiais.

— Um aluno, antes de fazer a cartinha, falou para a professora: “Tia, ontem foi horrível. Eu dormi debaixo da cama porque estava tendo muito tiro” — conta o diretor.

06/06/2017

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